A história de Baris (2ªparte)

Enquanto a noite dissipava as suas derradeiras e inúteis forças das trevas para continuar a prender a claridade e luminosidade do novo dia, os cavalos dão inicio aos seus esforços matutinos e assim que vem a ordem da senhora misteriosa, ei-los que relincham e Baris repara que os cavalos utilizam o relinchar para coordenarem os esforços e os movimentos e, verificando que o entendimento é total e perfeito, exclama: «Também estes animais representam a união fecunda pela perfeição, que é a cultura e a moral. Feliz é quem à mesa com os melhores amigos dá graças e recebe agradecimentos na medida de felicidade que a todos convém. Irei visitar o rei do próximo estado, pois que correm novidades que muito me inclinam a conversar e talvez aconselhar meu grande e bom amigo o rei Vitorino da Costa».
«Procedereis muito bem», dizia a princesa da Flandres, também reconhecida por Graziela Infanta dos Santos, «se seguirdes a direcção em que se encaminha teu pensamento. Creio que a missiva entregue esta madrugada pelo cavaleiro da noite vagabundeante exprime um enfatuado ardente desejo e pressa do rei Vitorino olhar para vida na tua companhia.»
«Sim, sem duvida alguma o nobre senhor acalenta na sua solidão pesadelos indecentes a quais a visão de um homem de bem e honrado não é impune e são já visíveis os primeiros sintomas do sofrimento que provocam», dizia Baris. «Vamos pois, partimos sem demora que a dor que assalta o meu amigo desfalece a sua saúde sem cessar, apressemo-nos a encontra-lo sem que seja necessário a comunicação " está doente; ficou doente..."».
«Realmente vós sois o melhor exemplo do sentimento que a amizade é capaz de prestar. Estar em vossa presença, participar da vossa companhia é para mim o maior bálsamo de virtude que posso e deverei poder escolher de entre todos os presentes e ofertas que o meu ideal imaginário e o meu conhecimento real e histórico do mundo são susceptíveis de conceber. Sem duvida...»
«Oh minha doce e deliciosa princesa, quanta doçura e loucura de enamoramento transborda de tão apetecíveis lábios apaixonados, tão bem desenhados, tão loucamente procurados...» e Baris beija Graziela arrebatada para o céu do estremecimento e do prazer divino, mas logo interrompido porque Baris continuou «oh bela princesa de longos anéis dourados e ondulados, não eleveis mais a minha virtude pois a carta que me escreveis é decerto ilustre o bastante para que a vida que a gravar no seu coração desperte em si e para todos os felizes que se cruzarem no seu caminho uma honra semelhante às promessas que se criam sob o efeito do Amor. E agora, puxai cavalos!»
Desde sempre vinha conquistando favores, e em sua honra serviam disputas de famas tão elevadas quanto o duelo revele os méritos e as honras dos senhores mais importantes de cada região, província ou cidade; é verdade que ninguém sabia donde partira pela primeira vez, mas decorrem dez anos que a sua Fama é a sua melhor e única nomeada visto que à Fortuna dispensa-a ainda poucos momentos antes de seguir nova viagem.
Viajava como poucos o faziam e se olharmos mil anos para trás no tempo de Cristo poderemos imaginar que na região da Itália a caminho do Mediterrâneo, pelas estradas romanas viaja Baris Tirome Oros juntamente com uma amiga de longa data na sua carruagem puxada por quatro cavalos, estes constantemente substituídos, como presentes dos seus amigos nas diversas zonas, por onde estagia e convive, estirpe de excelência dizia. Já a carruagem apresentava o conforto de uma sala de estar, e por conseguinte sentiam-se bastante agradecidos pela maneira como a vida lhes vai correndo e pelas escolhas que manifestam segundo a vontade de serem pessoalmente morais.
A palavra que existirá sem ser pensada ou pensamento que lhe dê conteúdo inteligível. Entende-se a ideia, o pensamento existencial. Mas, e o ser para ser dessa existência, que ser irá manifestar um tal ser, ou melhor, o ser... Escrever. Escrever é significar por palavras qualquer ideia. Na ausência de pensamento que palavras surgem à consciência de um ser capaz de tomar a consciência de algo, alguma coisa, ainda que inexpressa no seu consciente ou consciência real própria, quer dizer, sem interior ou mesmo exterior, exceptuando a ideia, um ideal inexplorado pelo menos até ao seu ultimo conhecimento com sucesso.
Imaginemos a vida num mundo onde a produção de bens necessários e essenciais havia sido acordada. Dado conhecimento publico transformado em sabedoria pratica. Tal produção total ao serviço do cidadão global. Agricultura e industria sem actividade comercial. Uma organização social fundada e baseada nas associações de classes. Imaginemos um mundo sem noticias: sem o que hoje é entendido por noticias. Por alternativa lógica apareceriam concerteza ensaios de expressão do pensamento humano impossíveis de realizar presentemente. Pois o que dará a criatividade humana liberta do serviço ao culto da personalidade e do poder?
Um objectivo, uma razão, um propósito, um motivo, uma obrigação, um apelo constante que força a sua execução, porque sabemos que a sua existência obedece a um imperativo categórico -: se não existir, se não for criado por nós entramos num processo de ruptura em que a falta, o sentimento da falta começa a dominar o espírito do pensamento humano.
Portanto, trabalharemos, de modo a evitar que o sentimento ou a sensação de escassez, de insuficiência possa espalhar o seu terror sobre a mentalidade da humanidade.

Pode haver maior inspiração para o trabalhador do que a sua efectiva consciência de utilidade indispensável, saber que a sua força de trabalho é necessária, impreterivel para o bom funcionamento do projecto económico que visa a satisfação das necessidades sociais?

Todavia, num mundo onde as possibilidades tecnológicas permitem satisfazer praticamente todas as curiosidades humanas através da comunicação social ao nível global, observamos um comportamento deveras insólito, que se reflecte num efectivo desinteresse da maioria dos trabalhadores pela execução do seu trabalho económico-social.

O grau de satisfação do trabalhador comum é a todos os níveis insuficiente, o seu nível de interesse praticamente nulo.
A compensação que advém do seu trabalho não comporta, no seu ponto de vista, sequer o mínimo de retribuição pelo seu sacrifício laboral.

A injustiça parece dominar o seu julgamento quando analisa a questão do seu trabalho. Essa injustiça sobrevem da sua compensação monetária, quando comparada com a compensação salarial dos seus superiores hierárquicos, sem que encontre razão lógica para justificar essa disparidade salarial.

Para alem da questão do disparate salarial, que comporta já de si componentes legalmente explorados para motivar um estado marcadamente vincado pelo poder da estrutura hierárquica, onde o sentimento de revolta do operário é abafado pela protecção legal do seu superior, existe ainda a componente do desinteresse económico-social experimentado pelo trabalhador.

Regra geral o empregado fabril é perspectivado como uma peça de maquinaria, faz aquele trabalho especifico e pouco mais. Logicamente que um qualquer funcionário sabe o que a sua empresa produz como mercadoria, mas o que acontece a essa mercadoria até chegar ao mercado de consumo, isso é uma aventura que está ainda por descobrir.

Algo de muito errado se passa numa sociedade em que os seus construtores sistémicos não operam com gosto pessoal a sua manutenção e desenvolvimento.
Uma sociedade democrática deve ser animada de baixo para cima, a sua perspectiva deve ser total, a sua compreensão iminente. Caso contrario temos uma democracia condenada ao fracasso, a sua degenerência será inevitavelmente fruto dos seu fundamentos doentios.
Hoje completaram-se os 20 anos da queda do muro de Berlim, o símbolo do que foi a opressão soviética e o primeiro passo para a queda da URSS.
Infelizmente, no meio da tantas histórias que relatam a alegria vivida pelos protagonistas do feito, muitos se esquecem do homem que contribuiu não só para evitar que a ordem desobedecida por alguém se tornasse num massacre, elevando essa pessoa a tudo menos á fama, mas também para a Perestroika, a reestruturação da Rússia, que levou o país a uma série de reformas para a democratização gradual.
Esquecem-se de Gorbachev, um social-democrata num partido bolchevique. Um homem humano e justo que poderia ter feito mais pela Rússia se o tivessem deixado ficar.
Felizmente, o muro caiu (e de forma pacífica), infelizmente, a URSS caiu quando podia hoje ser uma democracia a sério.
Hoje a Rússia não é mais do que uma democracia de fachada onde reina a máfia e a corrupção, onde os cidadãos não se podem manifestar livremente e onde os serviços secretos detêm grande poder e se livram dos opositores sistematicamente (ora jornalistas, ora políticos ora ex-espiões).
O mundo celebra a queda do muro de Berlim mas esquece que existe um muro em Israel (maior ainda) que separa milhares de famílias palestinianas.
E o mesmo acontece quando se celebra o fim da 2ª Guerra Mundial, altura em que o regime zionista limpa a a sua indecente imagem, choramingando sobre as mortes do passado, ao mesmo tempo que se vinga delas nos árabes.
Então e o muro na fronteira dos EUA com o México?
A áurea da liberdade conseguida faz-nos esquecer, todos os anos, que o capitalismo também tem os seus males, quase tantos senão semelhantes aos do comunismo.
É verdade que não existe alternativa séria ao capitalismo, ao mercado livre e ao domínio burguês, mas não devemos por isso deixar de os criticar mais do que criticamos aquilo que já lá vai.
A esquerda é vista única e exclusivamente como coisa do passado, como comunismo. Só o capitalismo importa, só ele é útil e funcional na prática. E é importante lembrar isso todos os anos. Até porque se o capitalismo é posto em causa, instala-se a "desordem", e a nossa "segurança" fica em causa. E então o medo espalha-se e as vozes de protesto são auto-silenciadas. É o capitalismo, é a liberdade.


Outros muros por derrubar: