
As eleições presidenciais de 2009 levantaram um país inteiro, ávido de mudança, de moderação, desejosos de uma maior liberdade e progresso.
Os principais candidatos foram o presidente, Mahmoud Ahmadinejad, do partido Abadgaran (partido conservador, islâmico e nacionalista) que procurava a reeleição e Mir-Hossein Moussavi, um independente reformista com experiência governativa na República Islâmica do Irão e com um passado negro, mas que se tornou o rosto principal da mudança para milhões de iranianos.
A esposa de Mossavi, Zahra Rahnavard, também se tornou uma figura popular nesta campanha, estando sempre ao lado do candidato e garantindo o voto das iranianas cansadas da repressão de Ahmadinejad em relação aos direitos das mulheres.
Mossavi defende, entre outras medidas, o afastamento de uma economia baseada no petróleo, a transparência dos contratos petrolíferos e dos rendimentos para combater a extorsão e a corrupção, a expansão do sector privado e a criação de sindicatos dos trabalhadores, a redução da pobreza (de acordo com o artigo 33 da Constituição), a revisão orçamentaria para minimizar o desperdício de gastos governamentais e fornecer acesso telefónico à internet em todo o país.
Os resultados oficiais destas eleições deram a clara vitória a Ahmadinejad, mas cedo se percebeu que algo de estranho e pouco transparente aconteceu na contagem dos votos.
Depois veio a censura. O acesso ás redes sociais como o Facebook foi bloqueado pelo governo e os meios de comunicação social foram silenciados.
Ahmadinejad venceu com 63% dos votos, contra 33% de Mossavi, tendo os outros dois candidatos (um independente conservador e um outro reformista) contado com pouco mais de 2%.
Imediatamente após as eleições seguiram-se os protestos e as alegações de fraude por parte dos simpatizantes da oposição.
Milhares de jovens, maioritariamente estudantes e das classes médias, os mais ocidentalizados e instruídos, saíram ás ruas em protestos na capital e em algumas das principais cidades. Usavam os telemóveis e as redes sociais para comunicarem entre si e organizarem os protestos e ao mesmo tempo para denunciarem o que se passava no seu país.
Centenas destes protestantes foram presos pelas autoridades e alguns foram forçados a admitir que, influenciados pelos meios de comunicação estrangeiros (BBC e Voz da América), cometeram “actos imorais” e vandalismo nas ruas numa tentativa do regime de enganar o exterior.
Dezenas foram feridos ou mortos, quer pela polícia quer pelas milícias islâmicas enquanto realizavam protestos “não autorizados”. Uma dessas pessoas foi Neda, uma jovem iraniana baleada nas ruas de Teerão, não se sabe ao certo por quem, e que graças a um vídeo onde se consegue ver a jovem a sangrar até á morte, passou a ser um dos símbolos deste movimento de democratização do Irão.
Mossavi chegou a desencorajar esses protestos com receio que mais jovens perdessem a vida neles, mas não baixou os braços gritando que não se ia render “a esta farsa”.
A luta do povo iraniano ainda se mantém, mas o mundo exterior permanece calado ou concordante com o governo iraniano.
Países ditatoriais ou semi-dictatoriais como a Coreia do Norte, China ou a Rússia e muitos países arabes e até democráticos felicitaram Ahmadinejad pela sua vitória e elogiaram-no sem terem uma palavra em relação aos protestos e á fraude eleitoral massiva que se deu no Irão.
Felizmente as Nações Unidas, a UE, o Reino Unido, a França, a Alemanha, EUA, Suécia, entre outros, manifestaram a sua preocupação em relação á falta de transparência dos resultados eleitorais, á repressão policial e á censura dos meios de comunicação social.
Devido ao apelo de Mossavi, o Ayatollan Komeini, o líder supremo do Irão, que já tinha felicitado o presidente pela sua vitória, anunciou que o Concelho dos Guardiães (os 12 juristas islâmicos mais influentes do regime) tinham organizado uma investigação para averiguar se tinha havido fraude.
Ao contrário do que muitos ocidentais pensam, Ahmadinejad não é um líder de esquerda, anti-imperialista, anti-globalização, anti-privatizações. É um governante conservador e nacionalista, que não permite qualquer abertura ou liberalização do seu regime ao exterior e á democracia.
É certo que ele goza de alguma popularidade entre o povo pobre e analfabeto deste país islâmico com 70 milhões de habitantes, pelo seu populismo e determinação contra todos os avisos do ocidente. Mas as suas políticas representam uma continuidade da tradição e do isolamento opressivo do seu regime, e mais do que isso, uma certa e perigosa dúvida em relação á verdadeira motivação que está por trás do seu programa nuclear.
O Irão merece, como todos os países, o direito ao progresso e á democracia. O direito á liberdade e á igualdade. E nós, como cidadãos do mundo, temos a obrigação de nós unirmos a esta causa, a causa da libertação do Irão.
Se o nosso governo não se pronuncia em relação a estes acontecimentos, se eles vergonhosamente se calam e baixam a cabeça perante um Irão que tem a arrogância de considerar as suas eleições mais democráticas do que as eleições europeias, nós cidadãos, individualmente devemos desmarcar-nos dessa posição cobarde.
Em meu nome, e em nome deste blog, eu anuncio o meu total apoio ao povo do Irão e o meu total repúdio ao regime de Ahmadinejad.
Até ao fim, todos somos iranianos.
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